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Memorial de Gravatá: história, memória e os bastidores da morte de Cleto Campelo

Foto do escritor: Danielle Lins
Danielle Lins
há 3 dias
6 min de leitura

Atualizado: há 11 minutos

Antiga cadeia pública, o espaço reúne registros da história gravataense e guarda a memória de um episódio político de 1926 que repercutiu na imprensa pernambucana


Fachada do Memorial de Gravatá, antiga cadeia pública do município. Foto: Danielle Lins.
Fachada do Memorial de Gravatá, antiga cadeia pública do município. Foto: Danielle Lins.

Quem passa pelo Centro de Gravatá talvez não imagine quantas histórias estão reunidas em um prédio que já funcionou como cadeia pública. Foi para conhecer esse patrimônio que visitei o Memorial de Gravatá, em mais uma edição do Pausa Cultural.


O espaço preserva documentos, fotografias, móveis e objetos relacionados à história do município. Entre os personagens representados no acervo estão o ex-prefeito Joaquim Didier, o tenente Cleto Campelo, Frei Damião e Helena Cavalcanti, esposa de Luiz Gonzaga. Em meio a tantas memórias, uma história chama a atenção pela repercussão política que levou o nome de Gravatá para além do Agreste pernambucano.


De cadeia pública a espaço de memória

Construído em 1911, durante a gestão do prefeito Joaquim Didier, o prédio abrigou a cadeia pública municipal até o final da década de 1970. Em 1983, foi tombado como patrimônio histórico pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e, em 1985, passou a funcionar como Casa da Cultura. Em 2002, recebeu a denominação de Memorial de Gravatá.


O percurso começa pelo hall principal, onde fotografias e informações apresentam aspectos da memória gravataense. No local, também estão a galeria dos ex-prefeitos e um busto do tenente Cleto Campelo, cuja trajetória está diretamente ligada à história do edifício.


O passeio segue por quatro salas identificadas como celas, em referência à época em que o prédio funcionava como cadeia pública. A primeira abriga uma sala de audiovisual, inaugurada em agosto de 2025, que recebe palestras, eventos culturais e exibições de filmes e produções independentes. A iniciativa amplia as possibilidades de uso cultural do edifício. Na segunda, o visitante encontra móveis, fotografias, objetos e registros relacionados à gestão de Joaquim Didier, incluindo o primeiro telefone da cidade, um misturador de tinta ligado à fábrica de couro do ex-prefeito e referências a construções realizadas durante sua administração.


A terceira sala é dedicada a Frei Damião. O acervo faz referência à primeira missa celebrada pelo religioso no Brasil, em 5 de abril de 1931, na Capela de São Miguel, localizada na região do Riacho do Mel, em Gravatá.


Antes de chegar à quarta sala, uma área reúne mais objetos antigos, muitos deles doados ao Memorial, como conjuntos de louças e xícaras, cristaleiras, máquina de costura, pilão e moinho. Entre as obras expostas está uma pintura em acrílico sobre tela que retrata a Fazenda Gravatá, ligada à origem do povoado. A obra foi produzida em dezembro de 2014 pelo artista plástico gravataense Jeisom Nascimento.


A quarta sala reúne referências à cultura e ao turismo do município. Entre elas, estão registros de José Luis Truan, suíço que investiu em empreendimentos ligados à hotelaria e à gastronomia na cidade, como a Taverna Suíça, contribuindo para a construção da imagem de Gravatá como a "Suíça pernambucana". O acervo também inclui exemplares de jornais antigos, como o Jornal da Cidade, o Jornal de Gravatá e a Gazeta de Gravatá, além de aparelhos de rádio, instrumentos musicais, câmeras fotográficas e máquinas de escrever.



Ambientes internos do Memorial de Gravatá e detalhes do acervo histórico. Fotos: Danielle Lins.


O Memorial também homenageia Helena Cavalcanti, gravataense que se casou com Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Fotografias do casal dividem espaço com registros do hino municipal, do Centro Desportivo Gravataense, fundado em 1929, de antigos carnavais e com uma réplica da tocha olímpica dos Jogos Rio 2016, que passou pela cidade em maio daquele ano.


Na área externa, fotografias de construções e fachadas ajudam a recuperar imagens da arquitetura local. O Jardim do Agreste Inaldo Guerra completa o percurso com exemplares da flora regional, como mandacaru, palma-forrageira, bromélia e facheiro.


O coordenador do Memorial, Admilson Silva, esteve disponível para esclarecer dúvidas e compartilhar informações sobre o espaço e seu acervo. Ele também acompanha visitas em grupo, contribuindo para contextualizar objetos e histórias que nem sempre são compreendidos apenas pela observação.


Cleto Campelo: uma morte que repercutiu na imprensa pernambucana

Um dos episódios mais marcantes relacionados ao prédio ocorreu em 18 de fevereiro de 1926, quando o tenente Cleto Campelo, militar ligado ao movimento tenentista, foi morto em Gravatá, aos 27 anos. Ele participava de uma mobilização contra o governo e pretendia seguir pelo interior de Pernambuco para se encontrar com integrantes da Coluna Prestes.


Busto do tenente Cleto Campelo, personagem marcante da história de Gravatá. Foto: Danielle Lins.
Busto do tenente Cleto Campelo, personagem marcante da história de Gravatá. Foto: Danielle Lins.

A movimentação havia começado em Jaboatão dos Guararapes, de onde Cleto e um pequeno grupo de militares e outros participantes partiram de trem. Durante o trajeto, buscaram novos apoiadores e, ao passar por Gravatá, invadiram a cadeia pública para libertar presos. Foi nesse contexto que o tenente morreu, em frente ao prédio que hoje abriga o Memorial.


O caso ocorreu em um período de intensas disputas políticas, marcado pela força das oligarquias e pela insatisfação de setores militares com o governo da Primeira República. Em Pernambuco, os conflitos também envolviam grupos políticos e econômicos influentes, entre eles a família Pessoa de Queiroz, cujos integrantes eram sobrinhos do ex-presidente da República, Epitácio Pessoa. A família também estava ligada à propriedade do Jornal do Commercio, no Recife.


No estudo Notícias de um crime: o assassinato do tenente Cleto Campelo e sua repercussão em periódicos pernambucanos (1926), a pesquisadora Maria Dulce Bandeira de Sousa Leal analisou a cobertura do episódio em jornais da época, como Diario de Pernambuco, Jornal Pequeno e Jornal do Recife. A pesquisa identifica diferentes formas de narrar o caso e mostra como os interesses e as disputas políticas também atravessavam a imprensa.


As notícias não eram apenas registros do ocorrido. A maneira de narrar a morte do tenente, a escolha das imagens e o tratamento dado aos envolvidos também expressavam posicionamentos diante do conflito. Os jornais ajudam a compreender não apenas o que aconteceu, mas também como o caso foi apresentado ao público.


As circunstâncias exatas da morte, porém, aparecem em versões distintas. No relato histórico apresentado no Memorial, Cleto teria sido atingido por um disparo acidental do foguista do trem, Arthur Cipriano dos Santos. Já a pesquisa de Maria Dulce examina narrativas segundo as quais o tiro teria partido das forças governistas ou de integrantes do próprio grupo do tenente.


Durante minha visita, Admilson Silva também compartilhou uma versão segundo a qual o responsável pelo disparo teria confundido Cleto com um policial disfarçado e suspeitado que ele pretendia confrontar o grupo de fugitivos que seguia no trem. Outra hipótese é a de que o disparo teria sido premeditado, como parte de uma emboscada supostamente ordenada por alguém. Essas explicações devem ser entendidas como versões não confirmadas, e não como conclusões históricas comprovadas.


Também circulam narrativas sobre o desaparecimento do corpo do tenente após seu sepultamento no Recife. Uma delas sustenta que soldados do Exército o teriam retirado do cemitério e levado para o Rio de Janeiro. No entanto, não encontrei comprovação documental suficiente para tratar essa hipótese como fato.


As diferentes narrativas mostram como a morte de Cleto Campelo permaneceu cercada de questionamentos e interpretações. Para Gravatá, o episódio se tornou um marco histórico.


Pontos de atenção na experiência do visitante

Na visita, senti falta de placas que identificassem individualmente os objetos expostos, informando sua origem, função e importância histórica. Um exemplo foi uma lanterna que, segundo a informação compartilhada no local, teria pertencido à família Raposo e sido utilizada na Guerra do Paraguai. Uma identificação com a procedência da peça e a fonte dessa informação ajudaria o público a compreender melhor os itens do acervo.


O espaço também não dispõe de rampa de acessibilidade, o que limita o acesso de pessoas com mobilidade reduzida. Segundo Admilson Silva, havia previsão de melhorias e recursos liberados para essa finalidade. Resta acompanhar se as medidas serão implementadas.



No Memorial de Gravatá: registro em frente ao hall principal e encontro com o coordenador Admilson Silva.


Serviço: como visitar o Memorial de Gravatá


Endereço: Rua Cleto Campelo, nº 108, Centro, Gravatá - PE.


Entrada: gratuita.


Telefone: (81) 3299-1899


Horários informados durante a visita:

  • Segunda-feira: fechado para manutenção.

  • Terça a sexta-feira: das 8h às 17h.

  • Sábado: das 9h às 17h.

  • Domingos e feriados: das 9h às 14h.


Como os horários podem sofrer alterações, vale conferir o funcionamento antes de sair de casa.


O Memorial de Gravatá é uma opção para quem deseja conhecer a história do município para além dos roteiros turísticos mais conhecidos. 


Esta foi mais uma edição do Pausa Cultural, um convite para conhecer lugares, histórias e experiências por outros olhares.



Um beijo,

Fique com Deus e até o próximo post.


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